
A gestão de Gianni Infantino na Fifa foi colocada em xeque publicamente por duas das seis confederações continentais. No sábado, 1º de agosto de 2026, Uefa e Concacaf divulgaram comunicados criticando a liderança da entidade e pedindo uma revisão completa do seu funcionamento. O estopim foi o anúncio de Infantino de que a Fifa não seguiria adiante com a proposta de vender participações das suas competições a investidores privados. É raro ver confederações inteiras romperem o silêncio institucional desse jeito.
O que Uefa e Concacaf disseram
As duas confederações apontam falhas de governança e de consulta na Fifa. A Uefa, que administra o futebol europeu, comemorou o recuo no plano de venda de participações e chamou a decisão de « uma vitória para todo o futebol », mas criticou o modo como a direção da entidade conduziu o assunto. A Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, América Central e Caribe, se manifestou no mesmo dia.
O peso do gesto está no formato. Divergências entre confederações e Fifa costumam ser resolvidas em reuniões de conselho, não em nota pública. Quando duas confederações escolhem o comunicado aberto, o recado é que os canais internos travaram. E a Concacaf é justamente a confederação que sedia a Copa do Mundo de 2026, ao lado de Estados Unidos, Canadá e México.
O plano de vender participações a investidores privados
O centro da disputa era a proposta de ceder fatias das competições da Fifa a investidores privados. Infantino confirmou que a entidade não seguiria com o projeto, e foi esse recuo que destravou as críticas públicas das confederações.
A lógica do modelo é conhecida: dinheiro à vista hoje em troca de uma fatia das receitas futuras. Funciona para clubes e ligas em aperto de caixa, mas gera resistência quando o ativo em jogo é uma competição que, na visão das confederações, pertence ao futebol como um todo. Foi exatamente esse o argumento da Uefa ao falar em vitória para o jogo inteiro, e não só para a Europa.
O que isso tem a ver com o Brasil
O debate sobre capital privado no futebol não é estrangeiro para o torcedor brasileiro. Desde a criação da Sociedade Anônima do Futebol pela Lei 14.193, de 2021, clubes como Botafogo, Cruzeiro e Vasco passaram a operar sob controle de investidores, e a discussão sobre quem manda no clube virou pauta permanente da arquibancada.
A diferença de escala é o ponto. No modelo SAF, o investidor entra num clube. No plano que a Fifa abandonou, o investidor entraria numa competição internacional, ou seja, num ativo compartilhado por todas as federações filiadas. É por isso que a reação veio das confederações, e não dos clubes.
Até o momento, apenas Uefa e Concacaf se pronunciaram publicamente. A Conmebol, à qual a CBF é filiada, não havia divulgado comunicado sobre o tema quando esta reportagem foi escrita. Vale acompanhar: a posição sul-americana costuma ser decisiva em disputas políticas dentro da Fifa.
Infantino e uma década no comando
Gianni Infantino é presidente da Fifa desde fevereiro de 2016, eleito depois da queda de Joseph Blatter. Antes disso, foi secretário-geral da Uefa, o que torna a crise atual ainda mais simbólica: quem critica hoje é a casa onde ele construiu a carreira.
Sua gestão ampliou a Copa do Mundo para 48 seleções, reformulou o Mundial de Clubes e expandiu de forma agressiva a receita comercial da entidade. Esses movimentos aumentaram o caixa da Fifa, mas também apertaram o calendário internacional, ponto de atrito frequente com ligas europeias e com os sindicatos de jogadores.
O que observar a partir de agora
Pedir uma revisão completa não significa que ela vá acontecer automaticamente. Qualquer auditoria de governança precisa passar pelas instâncias da Fifa, seja o Conselho, seja o Congresso, onde cada federação filiada tem um voto. Aí está o limite da pressão europeia: a Uefa pesa muito no dinheiro e bem menos na aritmética eleitoral.
Três sinais merecem atenção nas próximas semanas. Primeiro, se as demais confederações vão se manifestar. Segundo, se o tema entra na pauta da próxima reunião do Conselho da Fifa. Terceiro, o efeito prático sobre a preparação da Copa de 2026, já que a Concacaf é coanfitriã do torneio e agora está em rota de colisão com Zurique.
FAQ
Por que a Uefa criticou a Fifa?
A Uefa questionou a forma como a direção da Fifa conduziu a proposta de vender participações das competições a investidores privados e apontou falta de consulta às confederações. Ao mesmo tempo, celebrou o recuo do plano como uma vitória para todo o futebol e pediu uma revisão completa da entidade.
Qual era o plano que a Fifa abandonou?
A Fifa estudava vender participações das suas competições a investidores privados. Gianni Infantino anunciou que a entidade não seguiria adiante com a proposta.
Desde quando Infantino preside a Fifa?
Gianni Infantino é presidente da Fifa desde fevereiro de 2016. Assumiu após a saída de Joseph Blatter e havia sido secretário-geral da Uefa.
A Conmebol se manifestou sobre o caso?
Até a publicação desta reportagem, apenas Uefa e Concacaf haviam divulgado comunicados públicos. Não havia manifestação oficial da Conmebol sobre o tema.
A crise pode afetar a Copa do Mundo de 2026?
Não há indicação de que a realização da Copa de 2026 esteja em risco. A disputa envolve governança e modelo financeiro da Fifa. O ponto sensível é que a Concacaf, uma das confederações que criticou a entidade, é coanfitriã do torneio.
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