
A UEFA está preparando uma ação penal contra Gianni Infantino. Segundo documentos vistos pela BBC Sport, a entidade europeia protocolou um pedido de acesso a provas e documentos para uso em um processo na Suíça contra o próprio presidente da FIFA, a quem acusa de “má gestão criminosa”. O estopim é o plano — já arquivado — de vender participações na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA a investidores privados. É a maior escalada institucional do futebol mundial em anos, e o Brasil, com a Seleção e seus clubes, está longe de ser espectador neutro.
O que a UEFA acusa Infantino de ter feito
A acusação central é de “má gestão criminosa” ligada ao plano de vender fatias das competições da FIFA, incluindo a Copa do Mundo, a investidores privados. Os documentos obtidos pela BBC Sport mostram que a UEFA apresentou um pedido formal de acesso a provas e documentos — passo preliminar previsto no direito suíço antes de uma ação penal completa. No ordenamento suíço, o tipo penal invocado alcança quem administra interesses alheios e age contra esses interesses. Nada foi julgado até aqui, e Infantino mantém integralmente a presunção de inocência.
Vale registrar o essencial: o plano foi abandonado. O que a UEFA questiona não é um negócio em andamento, mas a forma como a proposta foi conduzida dentro da FIFA e as consequências que ela poderia ter tido para o patrimônio das competições.
Ceferin x Infantino: a ruptura entre as duas maiores entidades do futebol
A relação entre o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, e Gianni Infantino se deteriorou nos últimos meses, e este processo é o ponto de ruptura. Os dois já foram próximos: Infantino comandou a administração da UEFA antes de assumir a presidência da FIFA, em 2016 — mesmo ano em que Ceferin chegou ao topo do futebol europeu. Os atritos se acumularam em torno do calendário internacional, da criação de novas competições da FIFA e da divisão das receitas entre clubes, ligas e seleções.
Para os clubes europeus, o ponto sensível é o controle: a UEFA defende que as competições permaneçam sob gestão das federações, enquanto a abertura ao capital privado transferiria parte desse poder para fundos e investidores. É a mesma discussão de fundo que apareceu na tentativa da Superliga europeia.
Por que isso interessa ao Brasil e aos brasileiros na Europa
O Brasil é afetado por dois caminhos: a Seleção e a exportação de jogadores. A CBF é uma das 211 federações filiadas à FIFA e depende do repasse de receitas das competições mundiais — exatamente as receitas que estariam em jogo em qualquer modelo de participação privada. Qualquer mudança na estrutura de propriedade da Copa do Mundo altera a matemática desse repasse.
No lado dos jogadores, o impacto é ainda mais direto. Vinícius Júnior, Rodrygo, Estêvão, Éder Militão e dezenas de outros brasileiros atuam em clubes europeus e são liberados para a Seleção dentro de acordos negociados entre FIFA, UEFA e a Associação Europeia de Clubes. Mais competições, mais jogos e mais viagens significam mais desgaste — e o calendário do brasileiro que joga na Europa já é um dos mais pesados do mundo. Quem controla o calendário controla, na prática, a carga física desses atletas.
Quais são os próximos passos jurídicos na Suíça
O processo está em estágio inicial. Primeiro, o pedido de acesso aos documentos precisa ser deferido. Depois, a UEFA poderia formalizar a denúncia, e caberia ao Ministério Público suíço decidir se abre investigação e se há elementos suficientes para uma acusação. Esse tipo de procedimento costuma levar meses ou anos, e muitos nunca chegam a julgamento.
Ou seja: no campo judicial, nada será rápido. No campo político, o efeito já é imediato. Uma confederação continental acusar publicamente o presidente da entidade máxima de má gestão enfraquece a autoridade dele diante das federações filiadas e muda o equilíbrio de forças dentro da FIFA.
O que acompanhar a partir de agora
Três frentes merecem atenção. A primeira é a resposta oficial da FIFA e do próprio Infantino, que até aqui não foi condenado nem formalmente indiciado. A segunda é o posicionamento das confederações fora da Europa — incluindo a Conmebol —, que podem funcionar como fiel da balança política. A terceira é o destino definitivo do plano de venda de participações: oficialmente arquivado, ele pode reaparecer em outro formato.
Para o torcedor brasileiro, não há efeito prático nos jogos da próxima rodada. Mas a disputa vai definir quem manda no calendário, nas competições e no dinheiro do futebol mundial nos próximos anos — e isso chega, mais cedo ou mais tarde, à Seleção.
FAQ
Do que exatamente a UEFA acusa Gianni Infantino?
De ‘má gestão criminosa’ em relação ao plano, já abandonado, de vender participações na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA a investidores privados. Segundo documentos vistos pela BBC Sport, a UEFA pediu acesso a provas para usar em um processo na Suíça.
Infantino já foi condenado ou indiciado?
Não. Trata-se de uma etapa preparatória: a UEFA solicitou acesso a documentos com vistas a um eventual processo. Não há condenação, e a presunção de inocência se aplica integralmente.
Por que o caso corre na Suíça?
Porque FIFA e UEFA são associações constituídas sob a lei suíça, com sedes em Zurique e Nyon, respectivamente. O tipo penal invocado pela UEFA está previsto no código penal suíço, e não em um tribunal esportivo.
A venda de fatias da Copa do Mundo ainda está de pé?
Não. O plano foi arquivado. O que a UEFA contesta agora é a forma como a proposta foi conduzida enquanto existia.
Isso afeta a Seleção Brasileira ou os clubes do Brasil?
Não há efeito imediato. A médio prazo, o desfecho influencia a governança das competições internacionais, o calendário de datas FIFA e a divisão das receitas repassadas a federações e clubes — o que alcança tanto a CBF quanto os brasileiros que atuam na Europa.
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